Construí fantasias, com cenários quase sempre majestosos, para alguns homens públicos que nos hipnotizaram com surpresas e fingimentos. Não um Collor, desmascarado pela própria obviedade. Mas um Sarney, que visto de frente seria uma coisa, de lado virava outra, tinha nuances até de costas e assim se apresentava como um coronel em busca da transcendência.

Elaborei fantasias para Sarney, o aliado do golpe que ocupou o lugar de Tancredo em 1985. Quando assumiu, Sarney nos revelou avessos de quase tudo que se poderia esperar dele.

sarneyNa fantasia que construí, o Brasil seria um novo país a partir do Plano Cruzado, teríamos reforma agrária e os pobres tomariam iogurte. Sarney foi a um congresso de trabalhadores rurais para dizer que iria retalhar os latifúndios. Acabaria com a inflação e criaria um mercado interno forte.

Não deu certo. Na quinta-feira, Sarney acordou cedo e foi para o Senado para o último discurso. O plenário estava vazio quando ele começou:
— Quero dizer que esta é a última vez que ocupo a tribuna parlamentar, que frequentei desde 1955.
De repente os colegas começaram a chegar.
— Quis fazer cedo para que não tivesse ninguém, para falar às cadeiras vazias, mas a Casa está enchendo.

E a casa se encheu para ouvir Sarney dizer que abomina a corrupção, que os partidos não valem nada, os políticos sucumbem aos interesses dos financiadores de campanha, que é preciso moralizar o governo e que a reeleição só prejudica o país.

Enquanto Sarney discursava, os jornais anunciavam pela Internet que Maluf iria retornar à Câmara dos Deputados. Maluf foi liberado pelo Tribunal Superior Eleitoral para ser diplomado. Reverteu-se uma decisão do próprio TSE, que antes o considerou inelegível por condenação por corrupção. E Maluf disse sobre a decisão:

— Meus queridos, eu sempre confiei na Justiça deste país.
Sarney ia embora discursando contra os corruptos e Maluf anunciava o retorno exaltando sua confiança no Judiciário.

Sarney é o Brasil arcaico na sua obra humana exemplar. É um caboclo, quase uma figura de barro de mestre Vitalino, um político artesanal que arranja emprego para parentes, gerencia a corrupção paroquial e exerce o poder de agregar seguidores no Congresso para lotear governos.
Maluf frequenta outro departamento, o da disfunção da política no maior centro urbano do país. É a expressão da pilantragem liberal da linha de montagem industrializada. Nunca teria a confiança que o boneco barroco maranhense conquistou no Cruzado.

Sarney teve, em 1986, a adesão da elite e de intelectuais aos seus projetos redentores, que Maluf, um medíocre, nunca sonharia ter. Sarney brilhou até ser desmascarado como farsa na representação do que seria a versão do Getúlio do Maranhão, reformista, disposto a conspirar contra as próprias origens e a enfrentar o empresariado mais conservador, banqueiros e latifundiários.
***
Maluf nunca nos ofereceu a chance de pensar que ele também poderia se redimir, porque não dispõe de nenhum recurso que o absolva como aberração moral. Eu comeria rapadura com José Ribamar Ferreira Araújo da Costa Sarney na varanda da casa grande em São Luís, mas nunca compartilharia nada com Maluf.

Os coroneis da política nos oferecem a força literária dos que fingem até na hora da despedida, como Sarney fingiu querer a solidão de um discurso para o plenário vazio.