quarta-feira, 5 de março de 2014

Mestres reivindicam reconhecimento do carimbó, em Belém


05/03/2014 19h00 - Atualizado em 05/03/2014 19h00

Cerca de 20 lideranças e mestres de carimbó se reúnem nesta quinta, 6.
Encontro discute a inclusão do carimbó como Patrimônio Cultural Nacional.

Do G1 PA
Cerca de 20 lideranças e mestres de carimbó da mesorregião Nordeste e Região Metropolitana de Belém vão se reunir nesta quinta-feira (6), na sede do Instituto do Patrimônio Histórico e Natural (Iphan) em Belém, a partir de 9h.
A intenção é discutir o conteúdo do dossiê divulgado em fevereiro como parte do processo de registro do carimbó como Patrimônio Cultural Brasileiro, e recolher as contribuições das comunidades e grupos a esse documento, fruto de ampla escuta promovida pelo movimento em vários municípios desde janeiro. O documento está em consulta pública na internet até o dia 17 de março.

Mestre cazuza santa bárbara carimbó (Foto: Yasmin Alves/ Divulgação)Mestre Cazuza, de Santa Bárbara, será um dos mestre presentes no encontro. (Foto: Yasmin Alves/ Divulgação)
 
Para Isaac Loureiro, coordenador da chamada Campanha do Carimbó, movimento que desde 2006 mobiliza os mestres e as comunidades em mais de 20 municípios espalhados pelo estado, esse é o momento de evidenciar a participação popular no iminente registro deste bem cultural como patrimônio brasileiro imaterial.
“Na divulgação do dossiê, em fevereiro, a mídia paraense deu muita ênfase em um carimbó estilizado, usado como produto de promoção turística ou como fruto de uma indústria cultural local. Nós gostaríamos de enfatizar a dimensão comunitária e popular do carimbó”, afirma Loureiro, que também é membro do Conselho Nacional de Políticas Culturais (CNPC) do Ministério da Cultura, e foi um dos maiores articuladores do processo de patrimonialização.
Membro da centenária Irmandade do Carimbó de São Benedito, Loureiro também é organizador do Festival do Carimbó do município de Santarém Novo, evento realizado desde 2002 e que deu origem ao movimento pelo registro. Em 2005, o festival promoveu um seminário cujo tema era a importância do carimbó para a identidade cultural do Pará e da Amazônia. O evento levou ao interior representantes do Ministério da Cultura, IPHAN, Instituto de Artes do Pará (IAP) e Funtelpa, entre outras instituições. Aí surgiu a idéia de uma campanha em prol do registro, a partir do diálogo estabelecido com o IPHAN a respeito do Programa Nacional do Patrimônio Imaterial.  “Ali, começaram as mobilizações com dezenas de mestres do carimbó que vivem essa cultura em seus municípios. Conseguimos uma união e uma organização até então inéditas em torno dessa cultura”, explica Isaac.
Os mestres receberam cópias do documento apresentado pelo IPHAN e disponível  para consulta pública. A coordenação da campanha distribuiu os documentos anda em janeiro, quando o recebeu do IPHAN, e os enviou aos mestres e suas comunidades. “Houve um esforço muito grande em mobilizar, reunir e promover debates sobre o conteúdo do documento. Agora é hora de dar mais uma vez a nossa contribuição”, afirma Isaac Loureiro.

Ritmo miscigenado e ancestral

Nascido há cerca de 200 anos da mistura de práticas culturais cultivadas por negros e indígenas e acrescidas da influência lusitana, a origem real do carimbó é um mistério. Provavelmente surgiu em vários lugares ao mesmo tempo em diversos locais do Pará, incorporando as práticas nativas e se integrando ao cotidiano das comunidades pesqueiras e rurais tradicionais. Por sintetizar as culturas das três principais etnias formadoras do povo brasileiro na Amazônia, o carimbó é cultuado por artistas, estudiosos e militantes como o maior bem cultural da Amazônia, especialmente do Pará, onde sua cultura se mescla a diversas outras expressões regionais.
O folclorista Bruno de Menezes, na primeira metade do século passado, classificou três tipos de carimbó: o carimbó praieiro (também chamado hoje de “praiano”, praticado na Zona Atlântica do Pará); o carimbó pastoril (de Soure, Marajó); e o carimbó rural (do Baixo Amazonas). Além das localizações geográficas, os tipos mostram variações rítmicas e estilísticas entre si.
No início dos anos 1970, a popularização do carimbó, que era uma prática marginal na sociedade colonialista paraense, transformou-o em gênero musical “pop”. Vários grupos, cantores e compositores se lançaram numa tentativa de se estabelecer em um emergente mercado fonográfico local e nacional. O nome de maior sucesso, sem dúvida, foi o cantor e compositor belenense Pinduca, reconhecido até hoje como o artista que promoveu a eletrificação do carimbó, tornando-o uma atração ao mercado fonográfico brasileiro. A oposição entre o carimbó “de raiz” e o carimbó “pop”, industrializado, por assim disser, tornou-se uma dicotomia muito presente nos debates culturais paraenses.

Mestre Verequete e Mestre Cizico no I Pau & Corda, realizado em 2009 (Foto: Divulgação/acervo SANCARI) 
Mestre Verequete e Mestre Cizico no I Pau & Corda.
(Foto: Divulgação/acervo SANCARI)
 
Muitos mestres de carimbó contemporâneos, assim como o eram alguns seus ícones maiores, como Mestre Lucindo e Mestre Verequete, são refratários a ideia da divulgação de um carimbó “pop”, que desvirtua as tradições do estilo. Mas, hoje, nem todos compartilham da mesma resistência igualmente. Há, segundo Isaac, um sentimento comum de união entre aqueles que vivem o carimbó no seu cotidiano, uma realidade bem diferente daquela da vida urbana, e de se fazer reconhecer pelo seu valor artístico e cultural. “Não desconsideramos o carimbó estilizado que a mídia gosta de promover, mas gostaríamos de valorizar os Mestres, até porque é uma realidade muito diferente. A visão de um gênero de atração turística, simplesmente, ofusca questões muito importantes, como a sobrevivência e o reconhecimento dessa expressão popular”, enfatiza Isaac.
Serviço
Encontro da Campanha do Carimbó para avaliação do dossiê publicado pelo Iphan, nesta quinta-feira (6), no prédio do Iphan, localizado na Avenida Governador José Malcher, esquina com Benjamin Constant, às 9h30.

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