segunda-feira, 15 de julho de 2013

Polícia aponta envolvimento de políticos de Rondônia com traficantes

A deputada, e outros políticos, são apontados, por uma detalhada investigação policial, como recebedores de dinheiro do crime.

Fantástico mostra aquilo que, segundo a polícia, é um novo tipo de corrupção: o caso da deputada que registrou, em cartório, os favores que faria para os traficantes que bancaram a campanha dela.
A deputada, e outros políticos, são apontados, por uma detalhada investigação policial, como recebedores de dinheiro do crime.
As escutas mostram o dinheiro do crime financiando políticos:
Beto Baba: Negócio de vereador aí, eu vou ajudar mais de um, que é pra 2014.
Outro integrante: Não, tem que ajudar vários, pô, porque no final, os cara fica amarrado contigo.
Beto Baba, que aparece nas escutas, segundo a polícia é Alberto Ferreira Siqueira. Ele foi preso, sexta-feira passada, acusado de ser um dos líderes de um esquema, montado por bandidos que dava dinheiro para campanhas políticas em troca de favores e cargos públicos.
“Eu sou inocente”, disse Beto Baba.
Os criminosos chegavam a escolher os candidatos que disputariam as eleições.
Beto Baba: Tu vai me dar essa lista dos que tem chance, chefe!
Integrante: Nós fazendo quatro vereador, nós manda na cidade, depois manda na Prefeitura.
Ao todo, 53 pessoas foram presas até agora, numa grande operação da Polícia Civil. Entre eles, estão empresários e funcionários fantasmas. Três vereadores de Porto Velho, a capital de Rondônia, também foram para a cadeia.
Além dos vereadores, cinco deputados estaduais foram afastados do cargo, suspeitos de participação no esquema. Hermínio Coelho, presidente da Assembléia Legislativa de Rondônia está entre eles. As investigações indicam que ele contratou, pelo menos, 10 funcionários fantasmas, no atual mandato.
Um taxista seria um deles. Ele foi seguido e filmado por vários dias pela polícia. Segundo as autoridades, o homem está registrado como assistente parlamentar do deputado. Mas no período em que foi gravado, nem passou perto da Assembleia Legislativa.

“No Legislativo, a maioria dos assessores dos deputados não trabalha dentro do gabinete, trabalha nas bases. Se alguém provar que eu tenho qualquer ligação criminosa com qualquer pessoa nesse estado, ou nessa cidade, ou nesse mundo, eu renuncio ao meu mandato”, disse o presidente da Assembléia Legislativa de Rondônia, Hermínio Coelho.
Segundo as investigações, a deputada Ana da Oito chegou a  registrar, em cartório, os benefícios que daria para a quadrilha, depois de eleita.
O documento está entre as provas da polícia. Nele, a deputada estadual ‘assume o compromisso de partilha do mandato’ com os criminosos. Ela se compromete a reservar 33% de todos os rendimentos para o traficante Alberto Ferreira Siqueira, o Beto Baba. E ainda dá poder a ele para indicar o chefe de gabinete e mais alguém para um cargo com salário de R$ 3 mil.
Em troca, a deputada teria recebido mais de R$ 150 mil reais do traficante para pagar despesas de campanha. O documento tem data de agosto, dois meses antes das eleições de 2010.

“Várias pessoas ligadas diretamente e até parentes desses indivíduos que fazem parte da quadrilha foram nomeadas em gabinetes da Assembléia Legislativa e da Câmara Municipal para serem nomeadas a cargos comissionados sem, no entanto, exercer suas funções naquela localidade, aquela função pública”, explica o secretário de Segurança Pública de Rondônia, Marcelo Bessa.
Ana da Oito, segundo a polícia, teria contratado quatro funcionários fantasmas, que recebiam salários e devolviam parte deles para deputada. Uma mulher, chamada Ana Cristina das Pontes, seria um desses funcionários. Policiais gravaram a rotina de Ana Cristina, e afirmam que ela é professora de dança,  em uma  academia de Porto Velho. Na Assembleia Legislativa de Rondônia, Ana Cristina está registrada como assistente parlamentar. Segundo a polícia, ela sabia do esquema. E foi presa.
“Todas as pessoas que se investigou, que se chegou por qualquer motivo, seja por uma testemunha, por uma prova de interceptação, essa pessoa foi investigada e acompanhada através dos seus atos devidamente documentados, fotografias, filmes”explica Pedro Mancebo, diretor-geral da Polícia Civil de Rondônia.
Um outro caso de contratação ilegal chama a atenção por um motivo geográfico. Uma funcionária fantasma contratada pelo deputado Claudio Carvalho nem morava em Rondônia. Atualmente, vivia no estado do Rio Grande do Norte. De acordo com a investigação, Andréia Macedo Braga recebia, como funcionária fantasma, um salário de quase R$ 6 mil por mês. Ela foi presa, junto com o marido, Fernando Braga Serrão, no apartamento onde moravam, de frente pro mar, em Natal.

Andréia Macedo Braga: Eu tô presa? Mas eu não mexo com nada.
Segundo a polícia, Fernando é mais conhecido como "Fernando da Gata". E também era um dos líderes do esquema que financiava políticos em troca de favores. Ele confirma que a esposa, mesmo morando em Natal, era registrada na Assembleia Legislativa de Rondônia.
Fernando Braga Serrão: Minha esposa é assessora do deputado Cláudio Carvalho.
Fantástico: Sua esposa recebe salário pela Assembleia?
Fernando Braga Serrão: Recebe, recebe. Ela é funcionária.
Para infiltrar integrantes da quadrilha na política de Rondônia, os bandidos movimentaram mais de R$ 33 milhões e abriram 500 contas bancárias nos últimos cinco anos. O dinheiro era arrecadado com o tráfico de drogas e estelionatos. E para tentar legalizar esse dinheiro, os bandidos compravam imóveis e carros.
Imagens mostram alguns dos carros que, segundo a polícia, a quadrilha comprou com o dinheiro do crime. São veículos de R$ 100, R$ 120, R$ 150 mil. Em um ano e meio o grupo teria negociado cerca de 200 carros. Um total de R$ 7,5 milhões.
“A pretensão de financiar a campanha de alguns políticos era de, uma vez esses políticos eleitos, eles pudessem retornar esse benefício em forma de algumas facilidades, de algumas benesses, como nomeação de cargos comissionados, como até mesmo participação em emendas parlamentares ou indicação de empresas ligadas ao grupo para que participassem de licitações”, explica secretário de Segurança Pública de Rondônia, Marcelo Bessa.
Em 2011, a mulher do vereador de Porto Velho, Jair Montes, que está preso, foi vítima de um assalto e procurou a delegacia. Nessa época, a polícia já investigava o envolvimento de políticos com o crime organizado. E questionou Maria Eliane dos Reis Soares sobre os gastos de campanha do marido. Ela acabou revelando que o dinheiro vinha do traficante preso esta semana, Beto Baba.
Maria Eliane dos Reis Soares: Esse Beto Baba já apoiava ele para vereador. Depois que o Jair começou a se envolver com ele, começou a entrar dinheiro lá em casa. Era malas de dinheiro, malas, malas e malas de dinheiro.
Além de dinheiro, a casa do vereador também era usada, para esconder drogas, segundo Maria Eliane.
Maria Eliane dos Reis Soares: De um tempo para cá começaram a guardar droga lá no forro de casa.

As escutas mostram que, depois de eleito, o vereador passou a estreitar a parceria com os bandidos, para conseguir uma vaga de candidato a deputado estadual nas próximas eleições.
Jair Montes: A esperança deles para 2014 é nós. A nossa eleição pra estadual é quase certa pra 2014, entendeu?
A mulher do vereador Jair Montes morreu um ano depois de prestar o depoimento. Ela suspeitava de estar sendo envenenada.
Maria Eliane dos Reis Soares: Eu acho que já fazia em torno de uns dois meses que eu tava comendo comida envenenada e não sabia. Daí, quando eu fiz um exame de laboratório, que eu fui internada. Fizeram exame e constataram que tinha veneno, que eu tava adquirindo porções de veneno, pouca, mas eu tava consumindo.
“É uma possibilidade de se investigar as causas da morte, porque as causas da morte são realmente muito suspeitas. E antes de falecer ela não queria mais falar com a polícia”, diz o secretário de segurança pública de Rondônia Marcelo Bessa.

O advogado de Jair Montes, o vereador preso, não quis se manifestar. Em depoimento à polícia, Ana Cristina Dias Pontes preferiu ficar calada. Ao longo das últimas duas semanas, também tentamos falar com os deputados estaduais afastados: Cláudio Carvalho e Ana da Oito. Mas eles não atenderam, nem responderam às mensagens deixadas na caixa postal.

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