terça-feira, 18 de junho de 2013

Os políticos em xeque

Merval Pereira, O Globo

A tomada simbólica da cúpula do Congresso Nacional pelos manifestantes de Brasília e os ataques à Assembleia Legislativa no Rio, apesar de inaceitáveis como parte de manifestações democráticas que não deveriam dar lugar a depredações e vandalismo, sintetizam o espírito dos protestos espalhados por várias capitais do país.
O sociólogo Manuel Castells, um dos maiores especialistas em novas mídias, esteve no país recentemente e deu declarações sobre os movimentos mobilizados pelos novos meios sociais, chamando a atenção para o fato de que todos os dados mostram o desprestígio total dos políticos, partidos e parlamentos pelo mundo.
A descrença na democracia representativa levaria a que, se os cidadãos pudessem, mandariam todos embora, mas o sistema bloqueou as saídas, comentou Castells em entrevista ao jornal “Folha de S. Paulo”. Sua admiração pelos novos meios de comunicação, no entanto, não o leva a superdimensionar o poder desses instrumentos de mobilização.
Ele adverte que “não basta um manifesto no Facebook para mobilizar milhares de pessoas”. A mobilização dependeria do nível de descontentamento popular e da capacidade de mobilização de imagens e palavras, explicou. “A internet é uma condição necessária, mas não suficiente para que existam movimentos sociais”.
Também o professor Clay Shirky, autor do livro “The political power of social media” (“O poder político dos meios sociais”), conclui na mesma linha, dizendo que “as redes por si só não têm poder político, sendo necessário que a sociedade esteja madura para que seus efeitos aconteçam”. Castells diz que agora o cidadão tem “os meios tecnológicos para existir independentemente das instituições políticas e do sistema de comunicação de massa”.
Essa ação através das mídias sociais tenta preencher o que Castells define de “vazio de representação”, criado pela vulgarização da atividade político-partidária, que caiu no descrédito da nova geração de usuários da internet.
Manuel Castells acha que um político ligado aos partidos convencionais dificilmente conseguiria superar essa rejeição, mas acredita que a ex-senadora Marina Silva tem condições de assumir esse papel.
Sem se referir ao projeto de lei que está em tramitação no Senado que dificulta a criação de novos partidos, Castells previu que Marina “terá de enfrentar todo o sistema, porque um ponto sob o qual todos os partidos estão de acordo é manter o monopólio conjunto do poder”.
No seu livro “Comunicação e poder”, Castells, já analisado aqui na coluna, chega à conclusão de que as redes de comunicação social mudam a lógica do poder na sociedade atual, e já não se pode fazer política se não se levam em conta a crescente autonomia e o dinamismo da sociedade, utilizando a desintermediação dos meios de comunicação.
Os jovens da nova classe média, que deflagraram esses movimentos por todo o país, fazem parte de um conjunto de novos atores da política nacional que os políticos procuram entender e cooptar. A oposição, porque, como já advertira o ex-presidente Fernando Henrique, o “povão” estaria já cooptado pelos programas sociais do governo petista.
O governo, porque a presidente Dilma havia avançado muito sobre esse novo público, agregando novos eleitores aos tradicionais seguidores do PT, ampliando sua vantagem sobre a oposição. Pela motivação dos protestos pelo país, com críticas à corrupção dos políticos, até a realização da Copa do Mundo, pela falta de orçamento para setores que consideram mais importantes, como Saúde, Educação e transportes públicos, o governo federal está no centro dos protestos.
Por esse motivo, Fernando Henrique soltou uma nota ontem dizendo que “os governantes e as lideranças do país precisam atuar entendendo o porquê desses acontecimentos nas ruas. Desqualificá-los como ação de baderneiros é grave erro. (...) As razões se encontram na carestia, na má qualidade dos serviços públicos, na corrupção, no desencanto da juventude frente ao futuro”.
Também o ex-presidente Lula se manifestou: “Ninguém em sã consciência pode ser contra manifestações da sociedade civil, porque a democracia não é um pacto de silêncio, mas, sim, a sociedade em movimentação em busca de novas conquistas”. Ambos usaram o Facebook para suas manifestações.

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