quarta-feira, 19 de junho de 2013

Libertado o prefeito de Juazeiro do Norte, Ceará

Enviado por Ricardo Noblat -
19.6.2013| 5h55m

Há seis horas prisioneiro da parte dos fundos da agência do Banco do Brasil da rua São Francisco, no centro da cidade, Raimundo Macedo (PMDB), 70 anos, prefeito pela segunda vez de Juazeiro do Norte, Ceará, recebeu por volta das 22h de ontem a notícia que aumentaria de vez seu desespero: do lado de fora,  ocupando todos os espaços disponíveis, tendia a crescer a multidão estimada em quatro mil pessoas disposta a passar a noite em vigília para impedi-lo de sair dali.
Quem mandou Raimundo, de apelido Raimundão, não conseguir refrear sua curiosidade?


No meio da tarde, ao saber que uma passeata contra ele percorria as principais ruas da cidade, Raimundo decidiu observá-la de longe. Meteu-se no carro oficial, chamou um primo para acompanhá-lo e saiu atrás da passeata. Foi seu grave erro.
O alerta foi dado pelo primeiro manifestante que reconheceu o carro à distância: "Pessoal, olha o carro do Raimundão". A multidão cercou o carro. Há muito custo, o motorista manobrou e conseguiu chegar à agência do Banco do Brasil. Raimundo e o primo desembarcaram às pressas.
Ex-deputado federal, Raimundo faz uma administração considerada desastrosa até por correligionários dele que preferem não ser identificados. Os professores se tornaram suas principais vítimas. Simplesmente, Raimundo reduziu o salário deles em 40% e aumentou em 200 horas sua carga mensal de trabalho.
O prefeito, parentes e aliados deles são personagens de histórias escandalosas que divertem a oposição e irritam quem não gosta de política e de políticos por considerá-los, indistintamente, ladrões.
Um aperitivo: Mauro Macedo, filho do prefeito e Secretário de Governo, é casado com uma mulher dona de uma loja de roupas femininas conhecida como "A Daslu do Cariri". Juazeiro é uma cidade cheia de buracos. Pois bem: a rua da loja da mulher de Mauro foi toda asfaltada - bem como pequenas ruas que desembocam nela.
Adversários de Raimundo dizem dispor de provas de que ele e alguns secretários desviam dinheiro público e promovem licitações viciadas vencidas por empresas de amigos.
Cerca de 100 PMs tentaram no fim da tarde resgatar o prefeito na agência bancária. Valeram-se para isso de um carro-forte. Mal o carro estacionou nas vizinhanças da agência, os manifestantes começaram a apedrejá-lo. Tentaram furar seus os pneus. E para evitar que ele servisse à fuga do prefeito, os manifestantes deitaram no chão na frente do carro, pelos lados, por detrás e debaixo dele.
Repetiram a manobra por volta das 21h quando chegou à agência uma Hilux da PM.
Às 23h12h, além da multidão, a rua São Francisco abrigava tendas e barracas onde parte dos manifestantes planejava atravessar a madrugada. Dentro da agência, Raimundo, o primo e o motorista aguardavam a visita de Mariane Gurgel, Procuradora Geral do Município.
O plano de Raimundo era convencer Mariane a negociar sua liberdade com os manifestantes a tempo de ele comparecer ao Parque da Cidade para a única apresentação  da banda Aviões do Forró, contratada pela prefeitura por R$ 250 mil.
Não foi preciso a intermediação de Mariane. Por volta das 23h30, o contingente de 100 PMs, usando e abusando de cassetetes, sprays com gás de pimenta e até escopeta, cercou o prefeito e conseguiu empurrá-lo para dentro de uma camionete policial que havia sido providenciada.
Os manifestantes que tentaram impedir a saída do prefeito ficaram duramente machucados. Um soldado confidenciou que o prefeito prometeu gratifica-los com R$ 50 mil do próprio bolso. Ninguém sabe ao certo.

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