quinta-feira, 9 de maio de 2013

Marco Feliciano pregou na igreja de pastor preso

  • Presidente da Comissão de Direitos Humanos esteve no Rio na segunda-feira
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O deputado Marco Feliciano, presidente da Comissão de Direitos Humanos
Foto: Arquivo O Globo
O deputado Marco Feliciano, presidente da Comissão de Direitos Humanos Arquivo O Globo
RIO - O presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, Marco Feliciano (PSC), trocou Brasília pela Baixada Fluminense na última segunda-feira. Feliciano foi convidado para pregar na Igreja Assembleia de Deus dos Últimos Dias, do pastor Marcos Pereira, para pregar na matriz do Éden. A assessoria do deputado confirmou o encontro, mas considerou o fato uma rotina, porque Feliciano é convidado a pregar em todo o Brasil. O deputado voltou para Brasília na manhã de terça-feira.
A igreja foi fundada por Marcos Pereira em 1989, meses depois de ele ter começado a frequentar cultos evangélicos da Assembleia de Deus. De orientação pentecostal, a igreja começou a organizar cultos em presídios do Rio a partir da década de 90. Além da matriz do Éden, a igreja tem hoje filiais em São João de Meriti, Duque de Caxias, Maringá (PR) e Fortaleza (CE). Ontem à noite, o site da igreja divulgava uma mensagem na qual afirmava que a prisão do pastor Marcos seria uma injustiça, bem como uma forma de perseguição religiosa. Na mensagem, o pastor Marcos era comparado a profetas e líderes religiosos, incluindo Jesus Cristo.

Namoro só depois dos 17

A igreja divulga em seu site uma série de mandamentos rígidos de conduta. Um dos itens estabelece que os namoros devem ser santos. “O casal que zela pelo seu corpo como templo do Espírito Santo só se toca após o casamento. E só é permitido o namoro para maiores de 17 anos de idade”, detalha um trecho da doutrina. Os frequentadores da igreja também devem ser exemplos para a sociedade, seja em casa, no trabalho ou na igreja. Os fiéis também não podem ter animais de estimação, porque como não podem se defender de espíritos malignos, isso pode trazer infelicidade aos seus proprietários.
A leitura de jornais e revistas é proibida, bem como ver televisão, a fim de evitar receber experiências que são mentiras ou heresias. As mulheres costumam usar roupas longas. Outra regra estabelece que os fiéis não podem usar roupas nem ter objetos pretos e vermelhos. Nos cultos, são comuns testemunhos de ex-presidiários que detalham seus crimes. Os recuperados passam a ser obreiros da seita. Em 2010, a igreja apoiou o ex-pagodeiro Vaguinho, hoje cantor gospel e membro da seita, ao Senado.

Pastor pode ter violentado outras 20 mulheres

Acusado de estuprar seis mulheres e preso preventivamente na noite da terça-feira, o pastor Marcos Pereira da Silva, da Assembleia de Deus dos Últimos Dias, pode ter violentado pelo menos outras 20 vítimas. Ele responde a seis inquéritos por estupro, mas, segundo o delegado Márcio Mendonça, da Delegacia de Combate às Drogas (Dcod), nos 30 depoimentos colhidos num ano de investigações, são citados os nomes de mais 20 mulheres que também teriam sofrido abusos. Dos cinco inquéritos encaminhados à Justiça até agora, dois já resultaram em processos com mandados de prisão preventiva contra Marcos Pereira. Entre as vítimas, pelo menos três teriam sido abusadas quando eram menores, e uma delas é Ana Madureira da Silva, com quem Marcos foi casado até 1998. Os estupros teriam ocorrido na igreja, nas casas das fiéis e no apartamento do pastor.
Segundo Mendonça, Marcos ainda é investigado num sétimo inquérito por associação para o tráfico, lavagem de dinheiro e homicídio. Uma fonte da polícia contou que o pastor usa empresas no nome de pessoas de sua confiança para lavar dinheiro do tráfico. Já o delegado ainda disse que há confirmação de que, em duas ocasiões, Marcos visitou o traficante Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, chefe de uma facção criminosa que controla o tráfico de drogas em favelas do Rio:
— Temos depoimentos de que quem premeditou os atentados ao Rio de Janeiro, tanto em 2006 como em 2010, foi ele. Há depoimentos também de pessoas ligadas a ele dizendo que todos aqueles atos de salvamento de pessoas que seriam mortas por traficantes eram armados, teatros combinados.
No processo da 1ª Vara Criminal de São João de Meriti, cujo juiz decretou um dos pedidos de prisão, constam trechos da denúncia do Ministério Público sobre os abusos cometidos pelo pastor. Segundo uma das vítimas, em uma ocasião ele a obrigou a fazer sexo oral. No outro processo, da 2ª Vara Criminal de São João de Meriti, uma ex-fiel classifica o réu como maquiavélico e diz que ele mantém “estritas ligações com criminosos de todos os níveis, policiais e políticos, que o ajudam de diversas formas e em diversos crimes”. Na decisão, o juiz frisa que os fiéis seguem o religioso “sem qualquer questionamento, diante de uma verdadeira lavagem cerebral e espiritual”.
— Ele se aproveitava de pessoas pobres que achavam estar precisando de ajuda espiritual. Ele se comportava da mesma forma quando estuprava as mulheres, em geral na própria igreja, em São João de Meriti. Dizia que as mulheres estavam possuídas, endemoniadas. Ele as fazia acreditar que a única forma de se libertar era fazendo sexo com uma pessoa ‘santa’. Uma das vítimas foi abusada dos 14 aos 22 anos. Há relatos de estupros desde 1998 — diz Mendonça.
O apartamento de Marcos na Avenida Atlântica, em Copacabana, que está em nome da igreja e é avaliado em R$ 8 milhões, também teria sido usado para orgias. A maior parte das vítimas nesses encontros seria de fiéis, chamadas para cultos em que o acusado obrigava as mulheres a fazerem sexo com ele e outros homens da igreja. Haveria ainda sexo entre mulheres e entre homens. O delegado Mendonça informou que, nos depoimentos das vítimas, foi citado um médico que seria pago pelo religioso para fazer abortos nas fiéis, com as quais mantinha relações sem camisinha. E uma das vítimas disse ter sido atacada pelo pastor na casa de uma das irmãs de Marcinho VP, que teria participado do estupro.
O sétimo inquérito investiga o envolvimento do pastor no assassinato de uma mulher. Após uma tentativa de estupro, ela teria buscado denunciar as orgias. Segundo o delegado, um dos três condenados pelo crime é sobrinho do pastor:
— Após a tentativa de abuso sexual, a menina se revoltou e passou a tentar provar essas orgias. Em depoimento, a mãe afirmou que tem certeza de que quem mandou matá-la foi o pastor Marcos. Existem depoimentos sobre o assassinato de outras pessoas que descobriram as orgias. Estamos investigando.
Marcos Pereira foi preso na Rodovia Presidente Dutra, em São João de Meriti, na Baixada Fluminense, a caminho de Copacabana. Na manhã de ontem, ele foi levado para o presídio Bangu 2, onde está numa cela individual.

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